Thursday, November 19, 2009

A Luz Fraterna - de António Osório

Impossível continuar a ignorar a obra absolutamente maior deste discreto gigante da literatura e da língua portuguesas. Este é o mais recente dos seus livros maravilhosos, gigantes, únicos, osórios.

Tuesday, November 17, 2009

Acontecimiento - tradução de Gabriela López Zubiría

Suele suceder que sueño con pájaros que hablan
Y asi comprendo que eran personas después de todo
Pero personas que nunca conocí ni conoceré
Los pájaros son personas de las que no sabemos el nombre

Me pasa que con cierta frecuencia no sueño(en)
Callado en un discreto sitio y miro a los árboles que quedan
El viento los incendia de respiración convocatoria
Yo comprendo y callo más aún y no sueño nunca

Nunca levanto vuelo y nunca respiro, y entonces
Entonces es que sueño con esta persona y aquella
Y después voy a llamarlas por su nombre y ellas vuelan
Nunca me (re)conocen ni me (re)conocerán

aconhetecimento



terça-feira, 17 de Novembro de 2009



acontece-me sonhar com pássaros que falam
ao acordar compreendo que eram pessoas afinal
mas pessoas que nunca conheci nem conhecerei
os pássaros são pessoas de que não sabemos o nome

sucede-me com alguma frequência não sonhar
calo-me num sítio discreto e olho as árvores restantes
o vento incendeia-as de respiração convocatória
eu compreendo e calo-me mais ainda e não sonho

nunca levanto voo e não respiro nunca e então
então é que sonho com esta pessoa e aquela
e depois vou para chamá-las pelo nome e elas voam
nunca me conhecem nem conhecerão.

és / ás


terça-feira, 17 de Novembro de 2009





és ar /serás fumo
és água /serás terra
és pedra /serás areia

Zeca andarilha com Viriato

Vejam bem: http://vejambem.blogspot.com/2009/11/as-voltas-de-um-andarilho-sobre-jose.html

Saturday, November 14, 2009

Um Olhar Uno em Santarém


Rosário Breve nº 130 - www.oribatejo.pt

Telefonema do amigo V. para o amigalhaço S.

Tá? Tou. Oi. Oi. Segunda-feira dá? Dá. Falei co’ gajo dos jornais. Sim? Sim. Tudo tratadinho nos conformes. Que é que tens nas mãos? Luvas. Está frio. Frio porte. Pois. E Angola e coiso? Em princípio. Em princípio sim? Sim. Fixe. Tava aqui a pensar. Diz. Pá, Ovar. Ovar é coiso. Pois é. Vou ver. Tenta quinta-feira. OK. E que tal? Pá, vai-se andando. Sábado vou com ela. Fazes bem. Pois. Isto não pode ser só trabalho, trabalho, trabalho. Conhaque é conhaque. Luva é luva. Pois. Aquilo da TVI e coiso tá resolvido. Aleluia. Palavra do Senhor. Ámen. E o juiz, o coiso? Tá. Sim? Sim. Porreiro, pá. Tinha de ser. Pois tinha. Quanto ao resto? São trocos. Mesmo assim. Pá, calma. Telefonar para a Guarda. Republicana? Não me lixes, pá. Tens algum descartável? Quê, ministros? Pá, telemóvel, pá. Tenho. OK. Depois dou-te o número do meu. Mas primeiro aquilo de segunda-feira. Primeiro segunda-feira, claro. É favas contadas. Como o Benfica agora. Esses gajos andam fortes. Viste quanto é que o Rui Costa tá a tirar por mês? Porra, pá, então não vi. Pois é, também a sabe toda. No Porto é que é uma gaita. Sempre foi. Valentins e tal. Pois. Aquilo do BPN, digo-te uma coisa. Nem me fales. Cenaça. Os dois gajos da última página do Correio da Manhã, pá. Pois. E o Dâmaso e tal. Pá, agora só leio O Ribatejo. Pois, o Moita controla aquilo tudo. Medalha de ouro e tal. Ah campeão! E a Lurditas, pá? É tramado. Não é fácil, pá. Podes crer. Muito invejoso nos profs, cambada de preguiçosos. Os profs é assim, trabalhar e tal, nada. O Nogueira comunista e tal. O Judas também era comunista e olha o que deu. É. Já agora, vê-me aquilo de Espinho e coiso. Tá descansado. Pá, sério. Tá descansado. OK. Pá, fica bem. Tu também. Porreiro, pá. Xau. Xau, beijinhos à jornalista.

Tuesday, November 10, 2009

Tic tic tic tic

O amor é cego.
A memória é o cão do cego.

Thursday, November 05, 2009

Cegonhas do Louriçal - um fado

para o Luís Miranda, amigo e músico
Louriçal, tarde de 3 de Novembro de 2009
Do Louriçal as cegonhas
ai são do céu as noivas brancas
brancas como a flor do sal
do Louriçal as cegonhas
Poisam no claro ar aberto
trazem no bico o destino
certo que é ser incerto
o de cada um em menino
Voam como o tempo voa
mas voltam sempre p'ra casa
voam como o tempo voa
na ponta de cada asa
Riscam de cal o olhar
criam os filhos meninos
estão sempre à flor dos destinos
as cegonhas do Louriçal
Ai são figuras de sonhos
dos sonhos com que tu sonhas
as cegonhas do Louriçal
do Louriçal as cegonhas

Rosário Breve nº 128 - in www.oribatejo.pt

Nunca vi um porco com gripe



A famigerada Gripe-A, vulgo Suína, anda por esse mundo afora muito contentinha a papar imbecis que a temem mui piamente. Pouca gente parece ter percebido que a dita epidemia não existe. Mais: que se trata, de facto e deveras, de uma falcatrua à escala planetária das sinistras farmacêuticas, cujo trabalho é inventar doenças para os medicamentos em armazém. Lembram-se das vacas malucas? Lembram-se das galinhas doidas? Que é feito dessas raparigas? Hum?
Cada vez que me aparece no televisor o senhor doutor Francisco George, aquele senhor Director Nacional da Saúde cuja configuração facial, agravada pelo incompreensível risco ao meio, recupera no meu mesencéfalo o terror dos duendes dos contos de mentir à infância, cada vez que aquele senhor me aparece, assim português suave e definitivamente provisório, eu ralho cá para com o meu fecho-éclair: “Mas q´ais gripes ás, pá, mas q´ais gripes ás, pá!...”
De modos que é assim: somos um país de honestos palermas. Em plena República, apareceu a senhora-de-fátima a voar por cima duma azinheira. Cristo espadeirou na Batalha de Ourique. O padre Fontes organiza todos os anos aquela vigarice de Vilar de Perdizes. O Jardim é dono da Madeira. E até o Sporting de Braga, terra de arcebispos e de calhaus dotados de olhos, já mete medo. Não sei que raio faça à nossa vida, sinceramente e de facto e deveras.
À nossa vida, sim, que a Gripe-A teima em transformar em Vida-B. De Burro.

Saturday, October 24, 2009

Rosário Breve nº 127 (republicação) - www.oribatejo.pt

Tesouro

Vi os olhos do meu pai na cara de um homem que passava na rua.

Durou pouco, o regresso desse olhar de cão batido.

O homem olhou-me com um olhar que já era o dele.

Fiquei parado na rua.

Fazia sol.

O meu destino, que na altura era ir ao multibanco, tinha perdido o sentido, como todos os destinos.

Os olhos do meu pai, caramba.

Estes anos todos sem ele, e ali estavam os olhos.

Preciso sempre de uma explicação.

Preciso sempre de saber tudo.

Continuei parado ao sol, à espera de perceber.

Não durou muito, a explicação.

Eu tinha parado diante de uma montra espelhada.

O sol devolvia-me todo um corpo de vidro e luz parecido comigo.

Olhei-me os sapatos, os joelhos, a aba do casaco, a gravata, a cara.

Nessa cara alheia, lá estava outra vez o olhar do meu pai.

Nunca mais volto ao multibanco.

Nunca mais vou precisar de dinheiro.

Um tesouro olha por mim.

Thursday, October 22, 2009

Voltou a Chover, M.

Souto, Casa, manhã de 22 de Outubro de 2009



Esta luz dá-se vidro, faz-se água doce à boca dos olhos.
Voltou a chover, Mãe, as manhãs têm de ser conquistadas à água.
No meu caminho, árvores de fruto carregadas de jóias:
outros tantos sinais do trabalho de pessoas invisíveis à boca da terra,
pessoas-homens e pessoas-mulheres,
poetas maiores e máximos pintores dos campos,
escuras nas manhãs e à noite diamantinas como estrelas pobres.

Sigo a minha vida como um cão segue uma sombra,
voltou a chover, Mãe, as manhãs têm ser conquistadas à sombra.

E então as pessoas dão jóias e é que são sombras que a água no vidro,
a água afinal amarga à boca dos olhos.

Canzoada Assaltante

Estadisticas y contadores web gratis
Estadisticas Gratis